Governo do Estado do Rio Grande do Sul
Secretaria da Cultura
Início do conteúdo

Carlota Albuquerque: "Nada é mais impactante do que seres humanos reunidos"

Publicação:

-
Carlota Albuquerque - Foto: Liane Neves

Carlota Albuquerque construiu uma das trajetórias mais consistentes da dança contemporânea gaúcha a partir de uma convicção simples e poderosa: a criação nasce do encontro. Fundadora do Terpsí Teatro de Dança, ela transformou o trabalho coletivo em marca artística, atravessando quase quatro décadas de pesquisa, experimentação e formação de gerações de artistas. Nesta entrevista para o Banrisul Mulheres da Cena Gaúcha, relembra referências fundamentais de sua caminhada, compartilha momentos marcantes de sua trajetória e reflete sobre a cidade, o olhar feminino e a potência dos processos criativos construídos em conjunto.

Quem são as mulheres da cena artística gaúcha que são referências para o que você faz hoje?
Tenho muita admiração pela trajetória da Adriane Mottola e por sua capacidade de criar um coletivo e manter unidos há 38 anos. Tenho alegria e o privilégio de algumas vezes fazer parte de processos da Stravaganzza. Ela é uma diretora que instiga e acolhe ideias e aproxima pessoas e, o mais importante, é uma mulher de grupo. Suas criações repletas de humor e ironia criam uma assinatura de grupo genuína. Não poderia deixar a diretora Camila Bauer, que conheci em 2012, e desde lá fiquei encantada por sua pesquisa inquieta como encenadora. Desde 2015 somamos uma parceria criativa junto aos artistas do coletivo Gompa. Curiosamente conheci a Camila através de Adriane Mottola, na direção da obra Estremeço texto de Joel Pommerat. Devo dizer que esta vivência (e todas as que se seguiram) foi um espaço para perceber o trabalho de texto, ser provocada pela escrita da cena, pela dramaturgia dos corpos que se dispuseram às suas escritas.

O teatro foi um encontro que mudou para sempre minha percepção da cena e afeta meu processo de criação até hoje. Através da Casa de Teatro conheci minha amiga e diretora Graça Nunes que com seu conhecimento e memória absurdas fez um “ inventário” da cena teatral da cidade e o legado de algumas diretoras como Irene Brietzke e Maria Helena Lopes. Infelizmente nunca tive contato com Maria Helena, mas com Irene assisti várias montagens e trabalhamos juntas uma única vez na montagem do espetáculo para Expo 2000 em Hannover, Alemanha - uma mostra de espetáculos contemporâneos e folclore do Rio Grande do Sul que integraram os pavilhões brasileiros.

Qual projeto ou momento mais te marcou ao longo da sua trajetória artística?
Muitos momentos impactaram nos 39 anos junto ao Terpsí Teatro de Dança. Não posso deixar de lembrar a emoção de ter recebido a homenagem como madrinha 21° Poa em Cena e neste ano ter minha trajetória (poeticamente escrita) no livro Gaúchos em Cena. O POA em Cena faz parte do meu DNA artístico! Como esta pergunta abre fendas artísticas e afetivas, aparecem também na minha história o Carlton Dance , representando o Brasil no mesmo ano da participação de Pina Bausch. A energia emocional deste momento me embriaga ainda hoje. Vou mergulhando em memórias e aterrisso em 2010, quando recebi, ao lado de inúmeros artistas brasileiros a Ordem do Mérito Cultural, num evento de reabertura do Municipal do Rio de Janeiro com direção de Bia Lessa, e a presença do Presidente do Brasil, Lula da Silva.

O que muda no processo criativo quando o elenco, a equipe ou o coletivo é majoritariamente feminino?
O elenco do Terpsí sempre foi na maioria mulheres. Nossa primeira criação partia de relatos sobre o universo feminino de cada uma das oito bailarinas, fundadoras deste coletivo. A obra chamava-se As 4 estações, cuja dramaturgia era escrita por nossas histórias individuais e a necessidade existencial de “marcar o tempo”. Há algo de essencialmente coletivo nas mulheres - desde sempre buscamos umas às outras para resistir e criar. O olhar feminino, capaz de ter múltiplos focos, ficar atenta em muitos detalhes ao mesmo tempo é uma marca destes nossos encontros, mesmo quando cometemos (e brincamos) excessos “barrocos”.

Porto Alegre aparece na sua obra? De que forma a cidade entra no que você cria?
Uma pergunta interessante pois, na nossa dança, o espaço tem sua poética e pode gerar e/ou recriar uma nova dramaturgia - muitas vezes alterando os rumos da investigação em sala de ensaio. Pensando assim, a cidade e suas arquiteturas sempre estiveram no processo investigativo, como um território de expressão simbólica da Terpsí. Por exemplo, criamos uma obra especialmente para ser apresentada dentro do aeromóvel, frente a Usina do Gasômetro: E la nave no va, referência à obra de Fellini, mas gerada a partir da inquietude ao ver “um trem aéreo” que não se movia (ou tinha um movimento limitado, ) e que fazia parte do imaginário da cidade.

Já em O Banho, um estudo sobre a água como um bem finito, provocada pela obra visual da multiartista Zoé Degani (parceira criativa da Terpsí) fomos para as margens do Guaíba entrevistar pessoas e registrando suas vozes. O material sonoro colhido compôs a trilha do espetáculo e respondia a pergunta “qual a música que você cantaria no seu último banho” ? O espaço escolhido para a temporada do espetáculo só poderia ser um dos depósitos do Cais do Porto, onde no final da peça as portas do espaço eram abertas e o público era convidado a sair para olhar o rio.

Sua biografia recente lançada pelo Porto Alegre em Cena traz o título "Carlota Albuquerque: O Coletivo ou Nada". Como essa filosofia de que a dança só existe plenamente no coletivo define a sua história e o seu papel na resistência da dança gaúcha?
Sou um fragmento de todos os artistas envolvidos no Terpsí e em parcerias criativas em outros coletivos, bailarinas(os), cenógrafas(os), atores e atrizes, compositores, iluminadores... Não acredito em criação sem a inquietude de múltiplos olhares para construção de uma verdade na cena. Como diz Ariane Mnouchkine: nada é mais impactante do que seres humanos reunidos! Isto transforma, gera festa criativa de ideias, de corpos, e nos faz abrir as páginas da obra em cada encontro.

Mais notícias

Theatro São Pedro