Camila Bauer: "Não consigo pensar uma arte dissociada das urgências do nosso tempo"
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Diretora, professora e fundadora da Gompa, Camila Bauer construiu uma trajetória marcada pela criação coletiva, pelo diálogo internacional e pela defesa da arte como espaço de escuta e transformação. Nesta conversa, ela reflete sobre as mulheres que a inspiram, os desafios de criar em Porto Alegre e o papel do teatro diante das urgências do nosso tempo. A entrevista integra a série especial do projeto Mulheres da Cena Gaúcha, que ao longo dos próximos meses apresentará reflexões, memórias e trajetórias de artistas que ajudam a construir a história do teatro no Rio Grande do Sul.
Quem são as mulheres da cena artística gaúcha que são referências para o que você faz hoje?
O RS tem uma tradição de diretoras mulheres fortes, o que é muito inspirador. Mas tem também artistas muito importantes se desdobrando em diversas funções, escrevendo, dirigindo, atuando, produzindo, ensinando... me identifico muito com esta ideia de "mulheres de teatro", que têm suas vidas fusionadas com a profissão. Acho inspiradoras as figuras como a Adriane Motola, a Liane Venturella, a Carlota Albuquerque, que são mulheres que assumem várias frentes pra que a coisa aconteça, sempre com muita dignidade e inquietação. Acho que são grandes exemplos de profissionais que eu gosto de ter perto, com quem aprendo muito.
Qual projeto ou momento mais te marcou ao longo da sua trajetória artística?
Acho que pra mim o momento mais marcante foi quando voltei pra POA depois de ter morado vários anos fora do Brasil. Esse momento de tentar reconhecer a cena gaúcha, os espaços, as pessoas... e de tentar me reconhecer no meio disso também. Foram movimentos que me levaram a entrar como professora na UFRGS, a criar o Gompa, a começar a dirigir óperas. Foi um período de muitas decisões profissionais e pessoais também.
O que muda no processo criativo quando o elenco, a equipe ou o coletivo é majoritariamente feminino?
Acredito que a presença feminina nas equipes de criação muda não só o discurso, mas também o modo de criar. Noto uma escuta muito grande nas colegas mulheres, e tento responder a altura do que elas merecem. É um tipo de cumplicidade, de troca de viivências também. Não temos como ignorar as violências que sofremos diariamente na vida, e isso aparece em algum nível nos discursos e na linguagem que criamos também.
Porto Alegre aparece na sua obra? De que forma a cidade entra no que você cria?
Aparece sim, bem mais até do que eu gostaria. POA não é uma cidade generosa com seus artistas. O fomento é escasso, os espaços de trabalho precisam ser cavados o tempo todo. Há dois anos alugamos uma sala para ensaiar e guardar nossos cenários e equipamentos. Tudo de forma independente. O abandono dos poderes públicos faz com que a gente precise se unir em diferentes níveis, o que acaba também se refletindo nos modos de criar e produzir. É um reflexo do local em que estamos e das circunstâncias que se desenham. Com o Gompa, trabalhamos muito mais fora do que em POA, nossos fomentos são mais de fora do que daqui. O que acabou também nos levando a construir parcerias internacionais bastante sólidas, o que é uma parte bonita destas construções. Por outro lado, os assuntos das nossas peças acabam refletindo o lugar em que vivemos. Nosso último espetáculo (A Menina dos Olhos d'Água) foi sobre as enchentes no RS, o anterior (Meretrizes) havia sido sobre a prostituição no sul do Brasil. Então a cidade ta presente também nas narrativas, especialmente em nossos espetáculos de teatro documentário.
De que forma a sua bagagem internacional e o trânsito por festivais pelo mundo transformam o seu olhar na hora de dirigir espetáculos aqui no Brasil?
Acho que nossas experiências desenham nosso olhar, nosso modo de sentir e viver o mundo. E isso aparece em tudo o que a gente faz. Quanto mais a gente conhece pessoas, experiências e lugares, mais vamos tomando consciência da nossa pequenez, mais vamos percebendo a variedade de modos de viver e de construir narrativas. E pra mim isso é fundamental pra quem faz teatro; compreender que nossa visão de mundo é apenas uma possibilidade do real, e não a realidade em si.
Como vês o papel do teatro na discussão de um tema tão sensível e necessário - violência contra a mulher - atualmente?
Acho que, quando falamos de temas urgentes e não resolvidos, todas as frentes são importantes e necessárias. Nossos índices de feminicídio, assim como racismo, etarismo e LGBTfobia são altíssimos. A gente precisa falar sobre isso em todos os meios. Eu não consigo pensar uma arte dissociada disso.