Roberto Cordovani faz estreia nacional de De Dalí a Salvador no Teatro Simões Lopes Neto
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Conhecido pelo grande público por sua interpretação como o escravagista Sebastião Quirino na novela Novo Mundo, o artista retoma sua grande paixão: o teatro. Dalí terá duas sessões nos dias 31 de outubro e 1º de novembro
O ator e diretor Roberto Cordovani escolheu os palcos gaúchos para um espetáculo nacional de De Dalí a Salvador. E 90 minutos de espetáculo, Cordovani recria o polêmico e magistral pintor surrealista, fascista, clerical e racista, que abriu a Espanha como um campo de perfuração para a pior barbárie já conhecida: Salvador Dalí. Apresentações ocorrem nos dias 31 de outubro (sábado) às 20h, e 1º de novembro (domingo) às 18h, no Teatro Simões Lopes Neto.
Com projeções de obras e oito trocas de figurinos e adereços, a montagem tem em sua trilha sonora composições de Federico García Lorca, poeta de maior influência e popularidade da literatura espanhola e uma sumidade do teatro espanhol do século XX, permeando assim os 84 anos de vida de Dalí. Homossexual e tendo declarado sua paixão pelo pintor espanhol, Lorca foi publicamente execrado por Salvador Dalí.
“Para além do gênio, artista, Dalí era um homem em conflito; a realidade de suas obras transporta o público a mundo mágico e instável e revela o constante contato com seus demônios. O espetáculo fala dos medos, dos traumas, do grande amor erótico e trágico entre ele e Lorca e a musa da sua vida e esposa, Gala. Ele tinha plena convicção de ser o único mito vivo de Espanha, imortal e lenda viva”, diz Roberto Cordovani.
Existe um limite de até onde a arte eterniza-se per se. Obras maiores que seus criadores, mas não obras sem criadores. A curiosidade, a busca por significado do que torna algo belo ou grotesco é o que parece cativar a humanidade. Neste quesito, Salvador Dalí (1904-1989) se destaca. A mística em torno de sua figura, de suas obras, de suas obsessões, técnicas.
Há tanto a ser discutido. De uma suposta reencarnação à fascinação pelo autoritarismo, a vida do maior representante do Surrealismo – movimento artístico criado em 1924, ancorado na construção de imagens oníricas – já era alvo de constantes polêmicas, indagações e investigações à sua época. Seus trabalhos gestam a ideia de não pertencimento.
Diferentemente dos demais artistas surrealistas, Dalí demonstrava um fascínio “peculiar”, um “apreço” pelo autoritarismo. Seu apoio ao regime de Francisco Franco e sua obsessão por Adolf Hitler fez com que ele fosse expulso do grupo de surrealistas fundado na Europa em 1934 e considerado desertor do movimento. Um dos quadros mais emblemáticos é O Enigma de Hitler (1938), que mostra uma pequena fotografia do Führer em um prato vazio. Outra obra polêmica do tema é Hitler Masturbating (1973).
Com o estrago feito, muitos dos artistas surrealistas passaram a mencioná-lo no passado, como se ele estivesse morto – tornando a situação ainda mais conturbada.
A grande dificuldade neste cenário em concatenar o que tudo isto representa se dá pelo senso de humor extremamente ácido e agressivo de Dalí, que brincava com assuntos sensíveis e extrapolava a tradução de eventos para que se ajustassem à sua persona.
Dalí só era excêntrico em público, e isto apenas para ganhar notoriedade. Na intimidade, segundo ele, sempre foi um homem tranquilo, chegando, em certos momentos, às raias do recato. Trancado no castelo da Catalunha até o dia em que foi internado, o autor de obras como "Apoteose do dólar" e "Os cavaleiros do apocalipse" saía em raras ocasiões, preferindo velar os restos de Gala, morta há cinco anos. E mesmo acusado de louco, ele era, nos últimos anos de sua vida, quem tinha a melhor definição de si mesmo: “Sou não somente um agente provocador, mas um agente simulador... A loucura, em mim, pode ser substancial, e a substância mais profunda pode ser simples brincadeira.”
Com os finos bigodes apontados para o céu e a sonda introduzida no nariz, Salvador Dalí extinguiu-se lentamente, docemente, como uma vela que pouco a pouco vai-se apagando, como disse o médico Carlos Ponsati, diretor do Hospital de Figueras. Em 23 de janeiro de 1989 o mestre surrealista sucumbiu à insuficiência cardíaca, agravada por uma pneumonia.
Sobre Roberto Cordovani
Ator, autor, diretor e produtor paulista, tem mais de 45 espetáculos teatrais na carreira, entre eles Morte em Veneza – apresentado em Porto Alegre em abril deste ano –, Amar, Verbo Intransitivo, A Dama das Camélias, O Retrato de Dorian Gray, Isadora Duncan - A Revolução da Dança, Eva Perón - O Espetáculo, Olhares de Perfil - o mito de Greta Garbo e Orlando. Fez trabalhos no cinema e na TV, entre eles, o vilão Sebastião Quirino na novela "Novo Mundo".
Recebeu prêmios de Melhor Ator Charrington London Fringe Awards (Londres - 1989), Old Vic Theatre (Madrid - 1994), Premios Compostela de Teatro (1995), Festival Internacional de Teatro de Edimburgo (Escócia - 1989), entre outros prêmios europeus.